O mini-crítico

De Parelheiros a Wembley, eu tô de olho na bola que rola.

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De Parelheiros a Wembley, eu tô de olho na bola que rola.
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Terra Blog

26.08.08

Sugar Ray Charles

Carlos era burguês. Orgulhosamente burguês.

Ao entrar em sua casa, qualquer um logo se deparava com um par de vasos posicionados simetricamente, sustentando pares de xaxins de samambaias, carinhosamente tidas como originais pelo dono. Aaahh, nada como o verde! A natureza em seu mais primitivo e inofensivo estado. A querida mãe natureza. A flora. O ecossistema, tão ameaçado naqueles dias.

Mas a impressão de estar num ambiente asséptico e impoluto afligia o visitante antes mesmo que se cerrasse a porta de mogno do elevador do condomínio Buckingham Park Hills. Aparentemente, a sensação vinha de baixo. Subia do chão, emanava andar por andar. Ou será que nascia ali mesmo no décimo primeiro? Enfim, qualquer reflexão era prontamente interrompida, já que hmmmm.... Carlos usava Gleid. Maravilhoso cheirinho de lavanda que brindava as narinas, trazendo um ar camponês ao lar. Coisa de outro mundo!

Na porta - era outubro -, via-se uma guirlanda natalina em forma de bota ou meia (não estava bem claro). "É de boas vindas ao bom velhinho", dizia o anfitrião, satisfeito enquanto fitava fixamente o adorno rubro-verde. No chão, um capacho saudava: Wilkommen. "Acho que é 'bom dia' em holandês". Um olho mágico meio que intrigava quem chegava àquele hall, ajudado por uma luz que se acendia automaticamente. Funcionava por sensor. Tempos de economia. Fundamental, pensava Carlos.

Após finalmente entrar, avistava-se um lavabo. Coisa simples, pequena, e enfeitada por revistas de interesses gerais, dessas de recepção de dentista. Com o consentimento das persianas, as paredes, alvas como nuvens, e o assoalho quase intacto brilhavam intensamente, bronzeados pelo reflexo do sol. O home theater que Carlos não usava desde julho estava lá, discretamente coberto por um ou dois dedos de pó. "Tá com problema", dizia o dono, talvez para disfarçar seu desinteresse pela recente aquisição.

Eis que entravam em cena duas figuras que provavam, de uma vez por todas, o quão ímpar e singular era Carlos. Quiçá, a psicanálise se encarregasse de explicar a imponência que aquele par de bichanos - batizados de Merlin e Oz - acrescentava à personalidade d'uma pessoa de bem como ele. Pois não eram cães, eram gatos! Eram felinos e, como tais, eram imprevisíveis. Eram blasé. Eram, enfim, presentes de Dionísio em terra de Apolo. Por dentro, Carlos sentia-se melhor que Arnaldo, amigo do andar de cima, que gabava-se, pobrezinho, de ter dois poodles.

Na mesinha da sala, três livros espessos e novos. Em um deles, era possível ver o autor: Dan Brown. Na coleção de cd's, clássicos: Bee Gees, Lighthouse Family, Simply Red. E também um básico que não poderia faltar: Anna e Jorge. Na estante de dvd's, o xodó de Carlos: Divas Reunion - Live 99'.

Ainda ali, na mesinha, um cartão de crédito. Sobre ele, um estranho juntado de pó ou grão branco, parecido com açúcar, que dava a entender que nem tudo andava em seu devido lugar por ali.

21.08.08

Os reis do demérito

Assisto esportes como um louco. Um verdadeiro débil-mental. Um retardado. Um desgraçado. Especialmente agora, em época de Olimpíadas, são horas e mais horas dedicadas a qualquer bolinha que suba, desça, gente que pule, corra, se agarre, flutue, deslize, nade, cuspa, grite, esperneie, chore.
Como todo mundo sabe, dentre todos os desportos, o que tenho mais contato é o futebol. E é justamente nesse que me sinto mais à vontade para fazer minhas observações, que dessa vez não se direcionam aos atletas, e sim aos narradores e comentaristas.
Eu fico puto, essa é a palavra. Muitos desses profissionais claramente são leigos, a ponto de não saberem pronunciar nome de jogador, de time. Mas tudo bem, deixa passar. Muitos - muitos mesmo - nunca viram uma bola na frente, mas deixa quieto, né? Nem é essa a questão. E, afinal de contas, não vou desmerecê-los. O grande problema, na realidade, é a incompreensível preferência - que já virou "cultura" - que esses cidadãos têm em depreciar atletas, em vez de reconhecer méritos no adversário. E isso está tão presente nessa pretensa cultura futebolística que muitas vezes nem percebemos.

Quando o atacante vai lá, ganha na velocidade do zagueiro e toca na saída do goleiro, logo vem um entendido comentar:

- O atacante se aproveitou da lentidão do zagueiro e fez o gol.

Será que passa pela cabeça do comentarista que o atacante possa ser, de fato, mais rápido que o defensor? Ou será que ambos precisam disputar os 100 metros rasos pra ele reconhecer? Nesse caso, seria mérito ou não do atacante?

E quando o goleirão vai lá e faz uma brilhante defesa, cara a cara com o atacante adversário, do jeito mais difícil que tem no futebol. Não dá nem dois segundos e já vem o comentarista, sempre senhor da razão e diz:

- Ele deveria ter esperado e fintado o goleiro. Se precipitou.

Aí surge um lance igualzinho, no mano-a-mano, atacante x goleiro. Gato escaldado e talvez ansioso por cair no gosto do comentarista, o matador vai lá e dribla o goleiro, dando tempo de um zagueiro se recuperar na jogada e cortar. Quem que vem desfilar sua sabedoria? O cara...

- Essa bola era pra chutar! O goleiro já tava caindo e o zagueiro vinha chegando.

E é aí que eu penso comigo mesmo. Putz... quanto engenheiro de obra pronta! Que vida fácil e ninguém fala nada! Quando o filho é feio, o comentarista não quer assumir, bota defeito no fedelho e ainda diz que avisou. Quando ele é bonito, vem todo orgulhoso querer ser o pai da criança. Mas o certo é que nunca está errado. Mesmo que, entre seus muitos erros, tenha simplesmente destruído a reputação (e sem uma boa imagem, nesse futebol de hoje, não se tem lugar ao sol) de muito jogador por aí, que treina, viaja, joga, passa fome, leva trambique de empresário, calote de dirigente, apanha de torcedor...

Isso sem falar naquela escola de narradores que, estando do lado de cá do microfone, preferem debochar dos jogadores, lançando comentários constrangedores que escondem um enorme conservadorismo, uma fobia pelo inusitado, aquilo que faz o futebol verdadeiramente bonito. Quando parte um zagueiro pro campo de ataque, passa o meio-campo e tenta um lançamento lá na ponta, vem o cara:

- O Odvan achando que é o Gérson não dá, né? Aí é demais pra mim.

Parece brincadeira, mas eu não acho graça. Trata-se de um dos muitos preconceitos bobos a que o futebol está submetido, geralmente criados por esses ditos entendedores da bola, que prestam diuturnamente seus grandes desserviços à pelota. E sabe qual é o pior? Tudo isso é feito de maneira covarde, nojenta até. Como dito, quem faz isso tem sempre o microfone nas mãos e dá voz a quem quiser. Sobretudo com o corporativismo flagrante existente na imprensa esportiva nacional, com algumas raríssimas exceções.

Mas.. peraí. Será que isso acontece só na imprensa esportiva?

14.08.08

Yankee?



Me lanço no blackjack depois de umas Cubas Libres, amigo.
Vou fundo e, fuck, meus dólares acabaram! Whatever, manda mais um drink, bartender. Um whisky, tá? Preciso deletar esse fracasso urgente. Now!

Como diabos faço pra sair desse pub? Bom, deixa eu pensar... Esse host tem cara de babaca. Manja, uns maluco meio dumb-ass, meio redneck, desses que você não bota fé? Bem loser mesmo. Mas tá conversando com um tira. E  tem ainda um fortão no staff. Aí fode.

Vou ao W.C. espairecer, fumar um Marlboro. Saio com uns pingos no jeans e uma stripper com lábios gordurosos de gloss me pergunta se eu tenho algum motivo pra andar descalço por aí. Oh, Jesus, esqueci meu tênis lá dentro! Dou exatos doze passos, no tic-tac de meu Swatch, abro a portinha estilo Saloon e avisto meu belo par de Nike. Querido par de Nike! Lindo. Branco. Grande. Clean. Um design meio vintage, fashion pra caralho hoje em dia. Lembra o do Air Jordan. Fresquinho, direto do shopping. Não gosto de contar, mas tava 40% off. Não tinha como não aproveitar.

Mas goddammit, o que isso importa agora? Eu tenho que pensar em como sair daqui. Volto lá e uma tal de Kelly me pergunta se eu gosto de hip-hop. Minto e digo que curto os hits desses caras mais popstars, tipo Eminem e 50 Cent. Ela parece gostar, vai até o DJ e cochicha algo, parece que tava pedindo uma música. Do nada, eles começam a discutir e o clima na boate fica tenso. Ela chora. Eu vou consolá-la. Que bad, eu digo. Com o rosto ainda molhado, ela olha pros meus pés e diz algo que muito me anima. Uau, estaile esse seu tênis, hein? Era justo o que eu queria ouvir. Gostei da menina. Ela não parecia querer meu dinheiro. Além disso, era a típica moreninha mignon. Feia - parecia um jogador de rugby -, mas com pedigree, manja? Não curto aquelas mina com bafo de Close-Up e cara de lady. Enfim, essa Kelly tem sex-appeal. Então, embalado pelo rock'n roll do jukebox - o DJ, de tão puto, já tinha ido embora - como quem não quer nada, lanço: eu tenho uma cama king-size, sabe? Parece que é o password pro sucesso. Os olhos da mina brilham. E eu só pensando em como eu ia fazer pra sair dali.

Vou ao toalete de novo. Expulso o hot-dog que comi no almoço com raiva. Com direito a ketchup. Malditas hemorróidas. Ponho de novo a calça e, eureka!, penso num jeito de sair dali. É arriscado. Meio James Bond. Talvez um pouco mais covarde que isso. Enfim, o fato é que eu achei 5 pratas no bolso.

Volto, olho bem praquela pituzinha marota, com um shortinho sexy me esperando e me sinto em Hollywood. Só falta um smoking, uma arma e licença pra matar. Não... pensando bem, é meio Mc Gyver. Enfim, só sei que mal consigo fechar meu ziper de tão feliz que eu tô. Tem que dar certo.

Olho pro gigante do lado do host dorminhoco. Meio cochichando, chamo: Psiu... Ei, negão, vem cá. Eu sei que cê tá sem comer há um tempão, né? Tó - puxo o dinheiro amassado e rasgado como se fosse um cheque de banco suíço -, aqui tem cinco conto, come alguma coisa e fala que é por minha conta, beleza?

Essa porra desse negão sussurra, não responde direito. Definitivamente, um homem de poucas palavras. Mas acho que ele disse sim. Ele vai no balcão e pede um americano. Aproveito o deslize, pego a Kelly pela mão e me mando daquele lugar quase às moscas.

Entramos no meu Palio Weekend e ainda olho praquele neon vermelho e verde, com poucos watts sobrando, dizendo: "Sereia's Bar - Com Sauna", viro a esquina da Dr.Zuquim e vou-me embora.

Prazer, é isso que eu estudo



"No que tange a questão da viabilidade socio-econômica, pode-se afirmar que a alta empregabilidade de capital intelectual é imprescindível aos resultados esperados e inclusos no escopo do plano de marketing. Sendo assim, não obstante as intermitências inexoráveis apresentadas doravante, pode-se aferir com convicção que, independentemente dos empecilhos jurídicos que eventualmente se observar, os fatores macroambientais serão processados e analisados em seus pormenores, sendo, pois, uma garantia de feedback, haja vista que a mão-de-obra de que a corporação dispõe no presente momento é de inquestionável capacidade analítica."

Atenção para as partes grifadas. Elas não querem dizer nada.

13.08.08

Seleção do turno - Parte II



Carlinhos Paraíba, do Coritiba - Uma espécie de Elano recuado, Paraíba é o faz-tudo no meio-campo do Coxa. Dono de fôlego impressionante, Carlinhos pode ser considerado o motorzinho do time, principalmente pela qualidade que acrescenta nos passes - seja fazendo ligação com o ataque ou tabelando com os alas.
Ibson começou a cair de rendimento justo quando enfrentou o Coritiba de Paraíba, mas merece ser lembrado. Ramón, veteraníssimo, vem regendo o meio-campo do Vitória com muito sucesso. É bem verdade que cansa rápido nos jogos, mas dá grande contribuição enquanto pode. E Lúcio Flávio vem sendo peça imprescindível nessa retomada botafoguense, não podendo ser descartado.

Marquinhos, do Vitória - O ex-corinthiano Mirandinha costumava dizer: "Ou eu penso ou eu corro". Grande revelação do Brasileirão até aqui, Marquinhos mostrou que faz os dois. E como... Some a isso grande visão de jogo e poder de fogo para fazer gols e pronto, você tem Marquinhos.
Wagner, do Cruzeiro, faz um grande campeonato também. É um daqueles meias às antigas, que eu tanto admiro, um pouco Souza (ex-Corinthians), um pouco Alex (ex-Cruzeiro). Romerito é outro que encanta: como vem jogando o desengonçado meia do Goiás! "Faz tempo", dizem os torcedores do Santo André, com razão. Inteligente e ágil, é quase imparável pela ponta-esquerda esmeraldina. Alex, do Inter, vinha jogando muito. Muito mesmo. Outro daqueles meias em extinção. Se bem que vinha jogando adiantado, quase de atacante. Até que se lesionou...

Iarley, do Goiás - Um atacante que encanta pela chatice. Isso mesmo. Pergunte a qualquer zagueiro como é marcar Iarley. Tarefa infernal. Eu costumo apontá-lo como um dos jogadores mais inteligentes do país. E quando é assim, o aspecto físico - e lá se vão 34 anos - passa a não fazer tanta diferença. O Goiás que o diga. Desde que conseguiu reunir a dupla Iarley-Romerito, conseguiu desmentir a lógica, já que era nome mais que certo para cair. E isso, eu valorizo muito.
Merecem ser citados aqui Dagoberto, que recuperou seu belo futebol - com menos responsabilidades defensivas agora, o lépido Maikon Leite, com suas grandes atuações pelo Santos e Guilherme, que alternou altos e baixos durante o turno.

Keirrison, do Coritiba - Afastado de 7 jogos por lesão, o irmão de Kimarrison já soma 10 gols no Brasileirão. Sim, o irmão dele se chama Kimarrison. E ele tem uma média espantosa... Mas, pra mim, a média é o que menos importa. A questão é que Keirrison é veloz e técnico, características que raramente se casam com atacantes matadores como ele. Jogador semelhante a Nilmar, que também fez um belo 1º turno, especificamente nos jogos contra São Paulo, Goiás, Fluminense e Náutico e, por isso, merece menção honrosa. Atacante é o que não falta pra essa seleção: Adeílson, Dinei, Jonas, Marcinho, Jorge Henrique, Perea, Reinaldo, Kléber Pereira, Alex Mineiro...

Celso Roth, do Grêmio - Com escasso material humano e pressão gigantesca nas costas, Roth armou seu time bem ao clichê gremista, privilegiando o jogo coletivo e pragmático. Assim, superou a saída de seu armador, Roger, trazendo Tcheco (e beneficiando-se de uma brecha no regulamento para inscrevê-lo antes da data esperada) para a função. Ousou ao lançar dois garotos - William Magrão e Rafael Carioca - no meio-campo, quando perdeu Eduardo Costa. Mostrou ao país que é possível jogar no 3-5-2 mesmo sem ter alas espantosamente ofensivos. E mostrou-se devidamente preocupado com o elenco enxuto, trazendo Souza e Orteman, que muito serão úteis ao longo da competição. Por isso tudo, é mais do que justo que seja eleito o melhor treinador do turno.

Menções honrosas a Vagner Mancini, Ney Franco e Dorival Junior.