O mini-crítico

De Parelheiros a Wembley, eu tô de olho na bola que rola.

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Arquivo de: Agosto 2008, 21

21.08.08

Os reis do demérito

Assisto esportes como um louco. Um verdadeiro débil-mental. Um retardado. Um desgraçado. Especialmente agora, em época de Olimpíadas, são horas e mais horas dedicadas a qualquer bolinha que suba, desça, gente que pule, corra, se agarre, flutue, deslize, nade, cuspa, grite, esperneie, chore.
Como todo mundo sabe, dentre todos os desportos, o que tenho mais contato é o futebol. E é justamente nesse que me sinto mais à vontade para fazer minhas observações, que dessa vez não se direcionam aos atletas, e sim aos narradores e comentaristas.
Eu fico puto, essa é a palavra. Muitos desses profissionais claramente são leigos, a ponto de não saberem pronunciar nome de jogador, de time. Mas tudo bem, deixa passar. Muitos - muitos mesmo - nunca viram uma bola na frente, mas deixa quieto, né? Nem é essa a questão. E, afinal de contas, não vou desmerecê-los. O grande problema, na realidade, é a incompreensível preferência - que já virou "cultura" - que esses cidadãos têm em depreciar atletas, em vez de reconhecer méritos no adversário. E isso está tão presente nessa pretensa cultura futebolística que muitas vezes nem percebemos.

Quando o atacante vai lá, ganha na velocidade do zagueiro e toca na saída do goleiro, logo vem um entendido comentar:

- O atacante se aproveitou da lentidão do zagueiro e fez o gol.

Será que passa pela cabeça do comentarista que o atacante possa ser, de fato, mais rápido que o defensor? Ou será que ambos precisam disputar os 100 metros rasos pra ele reconhecer? Nesse caso, seria mérito ou não do atacante?

E quando o goleirão vai lá e faz uma brilhante defesa, cara a cara com o atacante adversário, do jeito mais difícil que tem no futebol. Não dá nem dois segundos e já vem o comentarista, sempre senhor da razão e diz:

- Ele deveria ter esperado e fintado o goleiro. Se precipitou.

Aí surge um lance igualzinho, no mano-a-mano, atacante x goleiro. Gato escaldado e talvez ansioso por cair no gosto do comentarista, o matador vai lá e dribla o goleiro, dando tempo de um zagueiro se recuperar na jogada e cortar. Quem que vem desfilar sua sabedoria? O cara...

- Essa bola era pra chutar! O goleiro já tava caindo e o zagueiro vinha chegando.

E é aí que eu penso comigo mesmo. Putz... quanto engenheiro de obra pronta! Que vida fácil e ninguém fala nada! Quando o filho é feio, o comentarista não quer assumir, bota defeito no fedelho e ainda diz que avisou. Quando ele é bonito, vem todo orgulhoso querer ser o pai da criança. Mas o certo é que nunca está errado. Mesmo que, entre seus muitos erros, tenha simplesmente destruído a reputação (e sem uma boa imagem, nesse futebol de hoje, não se tem lugar ao sol) de muito jogador por aí, que treina, viaja, joga, passa fome, leva trambique de empresário, calote de dirigente, apanha de torcedor...

Isso sem falar naquela escola de narradores que, estando do lado de cá do microfone, preferem debochar dos jogadores, lançando comentários constrangedores que escondem um enorme conservadorismo, uma fobia pelo inusitado, aquilo que faz o futebol verdadeiramente bonito. Quando parte um zagueiro pro campo de ataque, passa o meio-campo e tenta um lançamento lá na ponta, vem o cara:

- O Odvan achando que é o Gérson não dá, né? Aí é demais pra mim.

Parece brincadeira, mas eu não acho graça. Trata-se de um dos muitos preconceitos bobos a que o futebol está submetido, geralmente criados por esses ditos entendedores da bola, que prestam diuturnamente seus grandes desserviços à pelota. E sabe qual é o pior? Tudo isso é feito de maneira covarde, nojenta até. Como dito, quem faz isso tem sempre o microfone nas mãos e dá voz a quem quiser. Sobretudo com o corporativismo flagrante existente na imprensa esportiva nacional, com algumas raríssimas exceções.

Mas.. peraí. Será que isso acontece só na imprensa esportiva?