O mini-crítico

De Parelheiros a Wembley, eu tô de olho na bola que rola.

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Terra Blog

Arquivo de: Agosto 2008, 10

10.08.08

Toda goleira tem que ser uma mãe?



Sempre gostei muito de futebol feminino.

De 96 a 99, quando era apenas um pimpolho sonhador, eu acompanhava atentamente as transmissões de partidas na Band.
Me lembro bem da equipe que trabalhava nos jogos... o irreverente Silvio Luiz, a iniciante Luciana do Valle - mulher adivinhem de quem? - e o ex-advogado do Corinthians, João Zanforlin.
De dois em dois minutos, vinha aquele montão de propagandas:

- Você aí em casa, conheça a maravilhoooosa Porto de Galinhas, viajando pela TAM. Aliás, um grande abraço pro Comandante Rolim! Ah... antes de ir, passe no (falido) Valle Sport Bar e tome aquele chooooope Brahma, a número 1!

E eu, pirralhinho, já achava tudo aquilo um puta saco. Gostava mesmo era da bola redondinha que a maioria daquelas gurias jogava.

Me lembro que cheguei a ir ao Ícaro de Castro Melo, no Ibirapuera, em 97, assistir São Paulo 5x0 Lusa Sant'anna. E esse pode ser considerado um resultado baixo. O time do Morumbi, à época patrocinado pelos Ovinhos Turma da Mônica (alguém lembra?) era um verdadeiro esquadrão. Timaço que monopolizava os campeonatos, aplicando goleadas impiedosas em todas as adversárias. Era muito comum suas partidas terminarem em 15x0 ou resultados do tipo. Não a toa, servia como base para a Seleção Brasileira, que plantou ali uma semente para o aparente sucesso atual.

A goleira era a ruiva Maravilha, que veio do Palmeiras. Sua reserva era Andréia, hoje titular do Brasil. Na zaga, a esforçada, porém atrapalhadíssima Tânia Maria, hoje em dia capitã do escrete canarinho e conhecida como Tânia Maranhão. Me lembro que de alguns erros de passes seus surgiam os poucos gols sofridos pela equipe tricolor. Na armação, a Zidane das damas, dona de um talento espantoso e de uma cabeça raspada a la Sinead O'Connor: Sissi. A seu lado, a onipresente Suzana, sempre com a camisa 11. Na "volância", além da "cadela-de-guarda" (posso dizer assim?) Cidinha, jogava a ótima Formiga - implacável marcadora e boa lançadora - que até hoje brilha pelos campos verdejantes mundo afora. Na frente, uma das maiores artilheiras da história do futebol feminino e hoje reserva na Seleção: Kátia Cilene. A seu lado, Didi. No banco, sob a batuta do excelente Zé Duarte (que conduziu a Ponte ao vice paulista em 77), as atacantes Karin e Cléo Brandão.

Alguém aí se lembra da Cléo Brandão, apresentadora da Band e que chegou a posar nua na época? Entrava no fim dos jogos e... nada.

Isso sem contar com jogadoras de outros times. Pretinha e Fanta, do Vasco, Roseli e Milene Domingues, do Corinthians, Priscila, da Lusa Sant'anna, Michael Jackson, Tafarel...

O bagulho era crazy, como diria o glorioso Benguinha, irmão caçula de Oliver Genghis Kahn Benga, um dos maiores goleiros da história do futebol society.

Tinha até Suzana Werner no Fluminense. Me lembro que ela e a bola tinham uma relação tão pacífica quanto a que ela mantinha com Ronaldo naquela época. Como esquecer que o dentuço até chegou a fazer uma ponta na novela que alterou os rumos da dramaturgia brasileira: Malhação. (E como ator, o Fenômeno se saiu tão bem quanto Suzana se saía)

Mas, deixando meus devaneios de lado, quero tratar de uma dúvida antiquíssima minha, resgatada pela atuação inesquecível da goleira da Coréia do Norte contra o Brasil:

Porquê diabos a esmagadora maioria das goleiras é ruim?

Eu já carcomi os cabelos a pensar numa resposta.
Será que é tão difícil o nível dessas jogadoras melhorar? O que falta?

Tendo em vista os investimentos tímidos no futebol feminino ao redor do globo, pode-se dizer que falta a tão falada "estrutura".

E vocês devem estar se perguntando: "Pô, mas o que você quer dizer com esse clichê luxemburguês?"

E eu respondo, lançando-vos uma pergunta simples:

Vocês acham que um bom preparador de goleiros vai preferir trabalhar onde?

a) no Saad, um dos maiores clubes de futebol feminino do país, ganhando R$ 1000 por mês

b) no PSTC, pequeno clube formador de talentos (Dagoberto e Jadson, por exemplo) do Paraná -, ganhando os mesmos R$ 1000 por mês, mas com possibilidades bem maiores de ascenção profissional


Fica a pergunta.

E a conclusão: não adianta culpar as pobres goleiras, que vira e mexe, são como mães pras atacantes. Elas são apenas um sintoma de um problema imenso, muito maior que as coitadas das arqueiras, baixinhas em sua maioria.


E o mais curioso é que nada disso explica a falha grotesca de Myong Hui Jon, pobre norte-coreana.

Coisas do futebol, né fera?