O mini-crítico

De Parelheiros a Wembley, eu tô de olho na bola que rola.

O mini-crítico

De Parelheiros a Wembley, eu tô de olho na bola que rola.
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Arquivo de: Agosto 2008

26.08.08

Diariamente 2

Para curvar-se, Rei
Para roubar, castelo
Para correr, Nike
Para punir, Bope
Para matar, Nascimento
Para bater, Cocito
Para comer, Mc
Para ouvir, MC
Para entreter, VJ
Para dançar, DJ
Para falar, Halls
Para beijar, Trident
Para consumar, Audi
Para fotografar, idem
Para mentir, promessa
Para começar, asfalto
Para dar voz, rede
Para tirar, TV
Para aparecer, Rede TV!
Para esquecer, Bossa Nova
Para criticar, rap
Para tocar, jabá
Para desgostar, chefe
Para degustar, chef
Para enrijecer, Viagra
Para enriquecer, indústria
Para choramingar, novela
Para lacrimejar, cebola
Para azedar, vinagre
Para exportar, pés
Para pisar, terra
Para sambar, avenida
Para aprender, linha
Para sobreviver, confissão
Para consertar, academia
Para insistir, bisturi
Para desfilar, dieta
Para clicar, passarela
Para assombrar, notícia
Para versar, tecla
Para beber, Boa
Para devolver, marvada
Para esbanjar, cifra
Para limpar, ONG
Para brigar, pouco
Para morrer, menos
Para conservar, democrata
Para playboy, Caras
Para caras, Playboy

Sugar Ray Charles

Carlos era burguês. Orgulhosamente burguês.

Ao entrar em sua casa, qualquer um logo se deparava com um par de vasos posicionados simetricamente, sustentando pares de xaxins de samambaias, carinhosamente tidas como originais pelo dono. Aaahh, nada como o verde! A natureza em seu mais primitivo e inofensivo estado. A querida mãe natureza. A flora. O ecossistema, tão ameaçado naqueles dias.

Mas a impressão de estar num ambiente asséptico e impoluto afligia o visitante antes mesmo que se cerrasse a porta de mogno do elevador do condomínio Buckingham Park Hills. Aparentemente, a sensação vinha de baixo. Subia do chão, emanava andar por andar. Ou será que nascia ali mesmo no décimo primeiro? Enfim, qualquer reflexão era prontamente interrompida, já que hmmmm.... Carlos usava Gleid. Maravilhoso cheirinho de lavanda que brindava as narinas, trazendo um ar camponês ao lar. Coisa de outro mundo!

Na porta - era outubro -, via-se uma guirlanda natalina em forma de bota ou meia (não estava bem claro). "É de boas vindas ao bom velhinho", dizia o anfitrião, satisfeito enquanto fitava fixamente o adorno rubro-verde. No chão, um capacho saudava: Wilkommen. "Acho que é 'bom dia' em holandês". Um olho mágico meio que intrigava quem chegava àquele hall, ajudado por uma luz que se acendia automaticamente. Funcionava por sensor. Tempos de economia. Fundamental, pensava Carlos.

Após finalmente entrar, avistava-se um lavabo. Coisa simples, pequena, e enfeitada por revistas de interesses gerais, dessas de recepção de dentista. Com o consentimento das persianas, as paredes, alvas como nuvens, e o assoalho quase intacto brilhavam intensamente, bronzeados pelo reflexo do sol. O home theater que Carlos não usava desde julho estava lá, discretamente coberto por um ou dois dedos de pó. "Tá com problema", dizia o dono, talvez para disfarçar seu desinteresse pela recente aquisição.

Eis que entravam em cena duas figuras que provavam, de uma vez por todas, o quão ímpar e singular era Carlos. Quiçá, a psicanálise se encarregasse de explicar a imponência que aquele par de bichanos - batizados de Merlin e Oz - acrescentava à personalidade d'uma pessoa de bem como ele. Pois não eram cães, eram gatos! Eram felinos e, como tais, eram imprevisíveis. Eram blasé. Eram, enfim, presentes de Dionísio em terra de Apolo. Por dentro, Carlos sentia-se melhor que Arnaldo, amigo do andar de cima, que gabava-se, pobrezinho, de ter dois poodles.

Na mesinha da sala, três livros espessos e novos. Em um deles, era possível ver o autor: Dan Brown. Na coleção de cd's, clássicos: Bee Gees, Lighthouse Family, Simply Red. E também um básico que não poderia faltar: Anna e Jorge. Na estante de dvd's, o xodó de Carlos: Divas Reunion - Live 99'.

Ainda ali, na mesinha, um cartão de crédito. Sobre ele, um estranho juntado de pó ou grão branco, parecido com açúcar, que dava a entender que nem tudo andava em seu devido lugar por ali.

21.08.08

Os reis do demérito

Assisto esportes como um louco. Um verdadeiro débil-mental. Um retardado. Um desgraçado. Especialmente agora, em época de Olimpíadas, são horas e mais horas dedicadas a qualquer bolinha que suba, desça, gente que pule, corra, se agarre, flutue, deslize, nade, cuspa, grite, esperneie, chore.
Como todo mundo sabe, dentre todos os desportos, o que tenho mais contato é o futebol. E é justamente nesse que me sinto mais à vontade para fazer minhas observações, que dessa vez não se direcionam aos atletas, e sim aos narradores e comentaristas.
Eu fico puto, essa é a palavra. Muitos desses profissionais claramente são leigos, a ponto de não saberem pronunciar nome de jogador, de time. Mas tudo bem, deixa passar. Muitos - muitos mesmo - nunca viram uma bola na frente, mas deixa quieto, né? Nem é essa a questão. E, afinal de contas, não vou desmerecê-los. O grande problema, na realidade, é a incompreensível preferência - que já virou "cultura" - que esses cidadãos têm em depreciar atletas, em vez de reconhecer méritos no adversário. E isso está tão presente nessa pretensa cultura futebolística que muitas vezes nem percebemos.

Quando o atacante vai lá, ganha na velocidade do zagueiro e toca na saída do goleiro, logo vem um entendido comentar:

- O atacante se aproveitou da lentidão do zagueiro e fez o gol.

Será que passa pela cabeça do comentarista que o atacante possa ser, de fato, mais rápido que o defensor? Ou será que ambos precisam disputar os 100 metros rasos pra ele reconhecer? Nesse caso, seria mérito ou não do atacante?

E quando o goleirão vai lá e faz uma brilhante defesa, cara a cara com o atacante adversário, do jeito mais difícil que tem no futebol. Não dá nem dois segundos e já vem o comentarista, sempre senhor da razão e diz:

- Ele deveria ter esperado e fintado o goleiro. Se precipitou.

Aí surge um lance igualzinho, no mano-a-mano, atacante x goleiro. Gato escaldado e talvez ansioso por cair no gosto do comentarista, o matador vai lá e dribla o goleiro, dando tempo de um zagueiro se recuperar na jogada e cortar. Quem que vem desfilar sua sabedoria? O cara...

- Essa bola era pra chutar! O goleiro já tava caindo e o zagueiro vinha chegando.

E é aí que eu penso comigo mesmo. Putz... quanto engenheiro de obra pronta! Que vida fácil e ninguém fala nada! Quando o filho é feio, o comentarista não quer assumir, bota defeito no fedelho e ainda diz que avisou. Quando ele é bonito, vem todo orgulhoso querer ser o pai da criança. Mas o certo é que nunca está errado. Mesmo que, entre seus muitos erros, tenha simplesmente destruído a reputação (e sem uma boa imagem, nesse futebol de hoje, não se tem lugar ao sol) de muito jogador por aí, que treina, viaja, joga, passa fome, leva trambique de empresário, calote de dirigente, apanha de torcedor...

Isso sem falar naquela escola de narradores que, estando do lado de cá do microfone, preferem debochar dos jogadores, lançando comentários constrangedores que escondem um enorme conservadorismo, uma fobia pelo inusitado, aquilo que faz o futebol verdadeiramente bonito. Quando parte um zagueiro pro campo de ataque, passa o meio-campo e tenta um lançamento lá na ponta, vem o cara:

- O Odvan achando que é o Gérson não dá, né? Aí é demais pra mim.

Parece brincadeira, mas eu não acho graça. Trata-se de um dos muitos preconceitos bobos a que o futebol está submetido, geralmente criados por esses ditos entendedores da bola, que prestam diuturnamente seus grandes desserviços à pelota. E sabe qual é o pior? Tudo isso é feito de maneira covarde, nojenta até. Como dito, quem faz isso tem sempre o microfone nas mãos e dá voz a quem quiser. Sobretudo com o corporativismo flagrante existente na imprensa esportiva nacional, com algumas raríssimas exceções.

Mas.. peraí. Será que isso acontece só na imprensa esportiva?

14.08.08

Yankee?



Me lanço no blackjack depois de umas Cubas Libres, amigo.
Vou fundo e, fuck, meus dólares acabaram! Whatever, manda mais um drink, bartender. Um whisky, tá? Preciso deletar esse fracasso urgente. Now!

Como diabos faço pra sair desse pub? Bom, deixa eu pensar... Esse host tem cara de babaca. Manja, uns maluco meio dumb-ass, meio redneck, desses que você não bota fé? Bem loser mesmo. Mas tá conversando com um tira. E  tem ainda um fortão no staff. Aí fode.

Vou ao W.C. espairecer, fumar um Marlboro. Saio com uns pingos no jeans e uma stripper com lábios gordurosos de gloss me pergunta se eu tenho algum motivo pra andar descalço por aí. Oh, Jesus, esqueci meu tênis lá dentro! Dou exatos doze passos, no tic-tac de meu Swatch, abro a portinha estilo Saloon e avisto meu belo par de Nike. Querido par de Nike! Lindo. Branco. Grande. Clean. Um design meio vintage, fashion pra caralho hoje em dia. Lembra o do Air Jordan. Fresquinho, direto do shopping. Não gosto de contar, mas tava 40% off. Não tinha como não aproveitar.

Mas goddammit, o que isso importa agora? Eu tenho que pensar em como sair daqui. Volto lá e uma tal de Kelly me pergunta se eu gosto de hip-hop. Minto e digo que curto os hits desses caras mais popstars, tipo Eminem e 50 Cent. Ela parece gostar, vai até o DJ e cochicha algo, parece que tava pedindo uma música. Do nada, eles começam a discutir e o clima na boate fica tenso. Ela chora. Eu vou consolá-la. Que bad, eu digo. Com o rosto ainda molhado, ela olha pros meus pés e diz algo que muito me anima. Uau, estaile esse seu tênis, hein? Era justo o que eu queria ouvir. Gostei da menina. Ela não parecia querer meu dinheiro. Além disso, era a típica moreninha mignon. Feia - parecia um jogador de rugby -, mas com pedigree, manja? Não curto aquelas mina com bafo de Close-Up e cara de lady. Enfim, essa Kelly tem sex-appeal. Então, embalado pelo rock'n roll do jukebox - o DJ, de tão puto, já tinha ido embora - como quem não quer nada, lanço: eu tenho uma cama king-size, sabe? Parece que é o password pro sucesso. Os olhos da mina brilham. E eu só pensando em como eu ia fazer pra sair dali.

Vou ao toalete de novo. Expulso o hot-dog que comi no almoço com raiva. Com direito a ketchup. Malditas hemorróidas. Ponho de novo a calça e, eureka!, penso num jeito de sair dali. É arriscado. Meio James Bond. Talvez um pouco mais covarde que isso. Enfim, o fato é que eu achei 5 pratas no bolso.

Volto, olho bem praquela pituzinha marota, com um shortinho sexy me esperando e me sinto em Hollywood. Só falta um smoking, uma arma e licença pra matar. Não... pensando bem, é meio Mc Gyver. Enfim, só sei que mal consigo fechar meu ziper de tão feliz que eu tô. Tem que dar certo.

Olho pro gigante do lado do host dorminhoco. Meio cochichando, chamo: Psiu... Ei, negão, vem cá. Eu sei que cê tá sem comer há um tempão, né? Tó - puxo o dinheiro amassado e rasgado como se fosse um cheque de banco suíço -, aqui tem cinco conto, come alguma coisa e fala que é por minha conta, beleza?

Essa porra desse negão sussurra, não responde direito. Definitivamente, um homem de poucas palavras. Mas acho que ele disse sim. Ele vai no balcão e pede um americano. Aproveito o deslize, pego a Kelly pela mão e me mando daquele lugar quase às moscas.

Entramos no meu Palio Weekend e ainda olho praquele neon vermelho e verde, com poucos watts sobrando, dizendo: "Sereia's Bar - Com Sauna", viro a esquina da Dr.Zuquim e vou-me embora.

Prazer, é isso que eu estudo



"No que tange a questão da viabilidade socio-econômica, pode-se afirmar que a alta empregabilidade de capital intelectual é imprescindível aos resultados esperados e inclusos no escopo do plano de marketing. Sendo assim, não obstante as intermitências inexoráveis apresentadas doravante, pode-se aferir com convicção que, independentemente dos empecilhos jurídicos que eventualmente se observar, os fatores macroambientais serão processados e analisados em seus pormenores, sendo, pois, uma garantia de feedback, haja vista que a mão-de-obra de que a corporação dispõe no presente momento é de inquestionável capacidade analítica."

Atenção para as partes grifadas. Elas não querem dizer nada.